quarta-feira , 7 dezembro 2022
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Fantástico agroglifo conhecido como “formação de Milk Hill” encontrada em 2001 na Inglaterra, provavelmente obra dos circlemakers. Foto: Steve Alexander

Agroglifos: a divertida história por trás dos círculos que intrigaram o mundo

Você já inventou alguma mentira que depois não conseguiu desmentir? Pois nos anos 70, dois senhores ingleses, muito espirituosos, inventaram uma mentira que ganhou proporções inimagináveis. Até hoje, mais de 30 anos depois de terem revelado toda a verdade, ainda tem muita gente que prefere acreditar na mentira. Esta história conta como surgiram os agroglifos, aqueles enormes desenhos circulares criados em plantações através do amassamento da vegetação.

Durante muitos anos, a autoria dos agroglifos foi considerada um mistério, mas havia muita gente acreditando que aquelas obras de arte rurais seriam criadas por alienígenas visitando a Terra. Só que a verdade por trás dos agroglifos não é tão fantástica, mas é uma história muito mais engraçada.

Os círculos nas plantações começaram a surgir no final dos anos 70, no Sul da Inglaterra. Inicialmente eram formas mais simples, mas com o tempo, foram ganhando complexidade e aparecendo cada vez com mais frequência.

A possibilidade de que aquelas marcas fossem resultado de uma ação humana, era rapidamente rechaçada sob a alegação que elas eram muito perfeitas para serem feitas por nós. Como se a genialidade humana, capaz de construir imensos edifícios, gigantescas obras de arte e até enviar homens para a Lua, simplesmente fracassasse quando a tarefa fosse amassar uma plantação de trigo.

Diversas outras teorias surgiram para explicar aqueles círculos. Alguns achavam que eram feitos por fantasmas, outros que era a própria Terra, manifestando seu desagrado com a destruição da natureza. Mas nenhuma conquistou mais atenção do público e da mídia, do que a teoria que os agroglifos eram feitos por alienígenas. Algumas teses sugeriam que aqueles desenhos seriam uma forma de comunicação dos seres extraterrestres.

Nos anos 80, ufólogos de todo mundo visitavam o sul da Inglaterra. Eles instalavam modernos equipamentos e ficavam de vigília na esperança de registrar os artistas extraterrestres em ação. Alguns agricultores até se diziam preocupados com os prejuízos para suas colheitas, mas a verdade é que muitos aproveitaram o turismo na região gerado pelo fenômeno.

Até mesmo um novo ramo da ufologia foi criado para estudar os agroglifos: a cerealogia, que já contava com vários “especialistas” e até mesmo com revistas próprias. Só que por trás disso tudo, estavam dois senhores brincalhões, driblando as vigílias e se divertindo muito a cada novo desenho e a cada nova teoria sobre suas origens.

Doug Bower e Dave Chorley começaram a criar os agroglifos em 1978. Eles contam que a ideia surgiu em uma mesa de bar. Entre uma cerveja e outra, Bower contou sobre um curioso caso ocorrido na Austrália: grandes círculos foram encontrados em uma plantação em Tully. Eles provavelmente foram criados por redemoinhos de vento, mas muita gente preferiu acreditar que foram marcas deixadas por discos voadores que pousaram na região.

Doug Bower demonstrando como criavam seus agroglifos. Imagem: Reprodução South Today

Bower e Chorley decidiram então criar seus próprios círculos, basicamente para trollar os ufólogos da Inglaterra. Só que a coisa acabou indo longe demais. A partir de 1987 eles perceberam que começaram a surgir agroglifos em outras partes do mundo e que, obviamente, não eram eles os autores. Em 1991, decidiram acabar com aquela farsa, e fizeram isso em grande estilo.

Os amigos chamaram a imprensa para revelar toda a verdade. Diante dos jornalistas eles pegaram suas ferramentas, basicamente tábuas e cordas, e começaram a amassar uma plantação. Um arame preso a um boné servia de guia para garantir que as linhas ficariam perfeitas.

Doug Bower e Dave Chorley. Imagem: Reprodução South Today

Em poucos minutos a traquinagem estava pronta. Mas para encerrar com chave de ouro, os jornalistas chamaram Pat Delgado, um famoso cerealogista, para analisar os círculos. Delgado não teve dúvidas, e afirmou aos jornalistas que aquele era um agroglifo autêntico, produzido por extraterrestres. O que não parece ser o caso de Bower e Chorley, definitivamente ingleses e bem terráqueos.

A revelação de Bower e Chorley foi muito além de assumir a autoria dos primeiros agroglifos. Eles revelaram que até então, teriam feito mais de 200 agroglifos em plantações do Sul da Inglaterra, incluindo todos aqueles criados até 1987. Eles contaram detalhes de cada desenho, mostraram seus esboços, suas técnicas e como eles conduziram a opinião pública através daqueles círculos.

Contaram, por exemplo, que certa vez, uma cientista começou a se destacar defendendo que aqueles círculos eram formados por redemoinhos de vento, já que todas as plantas eram derrubadas sempre no sentido horário. Bower e Chorley responderam criando desenhos com diferentes círculos, alguns em sentido horário, outros em anti-horário.

Outro desafio enfrentado pelos intrépidos artistas veio de casa. Ilene Bower, esposa de Doug, passou a suspeitar dos sumiços noturnos de seu marido. Certa noite, ela foi convencida a acompanhar as aventuras dele e de seu amigo Dave. Depois de ver que seu marido não a enganava (enganava apenas o resto do mundo), ela se convenceu de que aquilo era algo bom para eles. Estavam os mantendo ocupados e em forma.

Só que, mesmo após a revelação de que tudo não passava de uma farsa, os agroglifos continuaram a surgir em todo mundo, e muita gente preferiu acreditar na mentira, mesmo depois dela ser desmentida. Havia quem achava que Bower e Chorley estavam simplesmente mentindo ao assumir a autoria dos agroglifos, e haviam muitos que se apegaram ao fato de que os círculos nas plantações continuaram a surgir.

Só que Bower e Chorley provaram, de forma inequívoca, que aquelas figuras poderiam ser criadas por humanos. Eles apresentaram diversas evidências de sua autoria dos primeiros agroglifos.

Claro, muitos dos agroglifos que surgiram depois de 1987 não têm autoria conhecida, mas sabendo que eles podem ser facilmente criados por humanos, por que seguir acreditando que eles seriam feitos por extraterrestres? Será que eles gostaram da brincadeira e resolveram responder as “mensagens” dos ingleses?

Doug Bower e Dave Chorley fizeram tudo isso por pura diversão. Permaneceram no anonimato até 1991 e parece que não ganharam nada com isso, além de uma excelente história. Essa divertida história inspirou inclusive a criação de um grupo de criadores de círculos na Inglaterra. Os “circlemakers” se auto-intitulam artistas e criam complexos desenhos em plantações utilizando as mesmas técnicas e ferramentas de Bower e Chorley. Eles criam tanto desenhos comerciais (para ações publicitárias), quanto puramente artísticos, e se divertem vendo a repercussão midiática de suas obras.

Mas infelizmente, essa brincadeira também mostrou a pessoas mal-intencionadas, uma forma eficiente de chamar a atenção, enganar outras pessoas e ganhar dinheiro com isso. Nosso desejo de contactar civilizações alienígenas nos deixa vulneráveis a acreditar nessas teorias inconsistentes. Cabe a nós estarmos sempre atentos para que não sejamos enganados por velhinhos brincalhões ou talvez, por nós mesmos.

 

Por Marcelo Zurita, editado por André Lucena / Olhar Digital

 

 

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